Sistemas duplex em estruturas galvanizadas a quente: Como funciona?
26 de junho de 2025
A eficácia dos sistemas duplex – a combinação entre galvanização por imersão a quente e revestimento orgânico – depende diretamente da correta preparação da superfície do aço galvanizado. Este artigo técnico apresenta, com base na norma SSPC-SP 16, as melhores práticas de jateamento abrasivo tipo brush-off, os materiais adequados para substratos não ferrosos, e os requisitos normativos estabelecidos na ABNT NBR 6323, ABNT NBR 16733:2019 e no guia técnico da AGA – Duplex Systems. Complementam-se diretrizes técnicas da EGGA e do ICZ, assegurando máxima performance em atmosferas severamente corrosivas.
O que é o sistema duplex na galvanização por imersão quente?
A galvanização por imersão a quente (conforme ABNT NBR 6323) fornece proteção catódica ao aço-carbono, formando camadas intermetálicas Fe-Zn. Ao aplicar um revestimento orgânico sobre essa superfície galvanizada, obtém-se um sistema duplex, cuja sinergia prolonga substancialmente a vida útil da estrutura, além de melhorar a estética, resistência química e a proteção em atmosferas C4 e C5 (conforme ISO 12944-2).
Estudos da AGA apontam que sistemas duplex bem executados apresentam durabilidade 1,5 a 2,3 vezes superior à soma isolada da galvanização e da pintura (Duplex Systems, AGA).
Requisitos Normativos da Galvanização – ABNT NBR 6323
A ABNT NBR 6323:2021 específica:
- As condições do banho de zinco (~450 °C);
- As espessuras mínimas de revestimento por classe de material;
- Os critérios de aceitação (aderência, aspecto, continuidade e espessura);
- As tolerâncias para galvanização de peças antes do revestimento orgânico.
Esses requisitos devem ser rigorosamente atendidos antes da preparação da superfície para o sistema duplex.
3. Preparação da superfície: SSPC-SP 16
3.1 Objetivo
A SSPC-SP 16 define o método de jateamento abrasivo leve (brush-off blast cleaning) aplicado sobre substratos metálicos não ferrosos, como aço galvanizado, a fim de:
- Promover ancoragem mecânica adequada para primers e tintas;
- Preservar a integridade da camada de zinco;
- Remover óxidos, sais solúveis, poeiras e contaminantes sem danificar o substrato.
3.2 Métodos permitidos (Seção 6)
- Jateamento com ar comprimido seco, em cabine ou campo aberto;
- Equipamentos com recuperação de abrasivo ou contenção de pó;
- Todos os métodos devem garantir perfil de rugosidade mínimo de 20 μm (0,75 mil) sem comprometer a camada de zinco (AGA).
4. Abrasivos recomendados – Seção 7 da SSPC-SP 16
4.1 Seleção de abrasivos
Abrasivos não ferrosos recomendados:
- Óxido de alumínio
- Silicato de alumínio ou magnésio
- Granada natural (garnet)
- Casca de noz moída ou milho triturado (ambientes sensíveis)
- Esferas de vidro (glass bead)
Não utilizar granalha de aço carbono, escória de cobre ou abrasivos ferrosos, que podem danificar a camada de zinco ou introduzir contaminações metálicas (SSPC-SP 16; AGA; EGGA).
4.2 Parâmetros operacionais
| Parâmetro | Faixa Recomendada | Referência |
| Pressão de jateamento | 0.45 MPa [40~65 psi]) | NBR 16733; SSPC-SP 16 |
| Ângulo de incidência | 30° a 60° | NBR 16733 |
| Distância do bico | 250–400 mm | AGA |
| Rugosidade (Ra) | ≥ 20 μm (mínimo) | ISO 8503 |
| Rugosidade (Ra) | 10~ 20 μm (mínimo) | NBR 16733 |
5. Aplicação do revestimento orgânico – ABNT NBR 16733:2019
A norma ABNT NBR 16733:2019 define esquemas de pintura sobre aço galvanizado para proteção anticorrosiva, estabelecendo requisitos técnicos conforme a agressividade ambiental (categorias C2 a C5), durabilidade e o estado da galvanização (nova, envelhecida ou com corrosão).
- Deve-se empregar primers compatíveis com superfícies galvanizadas, como ricos em zinco, epóxi-modificados ou etil-silicato;
- Esquemas multicamadas recomendados:
Exemplo de esquema para aço galvanizado novo em ambientes de agressividade C4/C5:
- Esquema Tipo VII – Tinta líquida (galvanizado novo):
- Primer: Epóxi rico em zinco, Espessura mínima seca: 75 μm;
- Camada intermediária: Epóxi, Espessura mínima seca: 120 μm;
- Camada de acabamento: Poliuretano ou poliéster,Espessura mínima seca: 60 μm;
- Espessura total mínima do sistema: 255 μm secos.
O sistema deve ter espessura total seca (DFT) ≥ 200 μm para ambientes C5.
A norma exige controle de:
- Aderência (ensaio de corte cruzado – ISO 2409 ou pull-off – ISO 4624)
- Continuidade da película
- Secagem e cura conforme ficha técnica do fabricante
6. Boas Práticas da AGA – Duplex Systems: Painting over Hot-Dip Galvanized Steel
Segundo a AGA, as práticas fundamentais incluem:
- Jateamento conforme SSPC-SP 16 ou ASTM D6386, respeitando o tempo entre galvanização e pintura (ideal: < 12 meses);
- Evitar envelhecimento natural > 2 anos sem reaplicação de fluxo ou pré-tratamento químico;
- A aplicação do sistema de pintura deve ocorrer no mesmo turno da preparação da superfície (ou em até 8h), para evitar oxidação superficial do zinco;
- Realizar mock-up de jateamento + pintura e validação de aderência antes da produção em série
Inspeção e controle de qualidade
- Espessura do galvanizado (pré-jateamento): conforme ABNT NBR 6323 e ASTM A123
- Espessura do revestimento orgânico: ISO 2808 (medidor magnético)
- Rugosidade do perfil: ISO 8503 / ASTM D4417
- Teste de aderência da pintura: ISO 2409 ou ISO 4624
- Verificação de contaminação: ISO 8502-3 (sais solúveis), ASTM F22 (teste de água pura)
Qual a diferença entre o sistema de pintura e o sistema de galvanização a quente?
A principal diferença entre sistema de pintura e sistema de galvanização a quente está no tipo de proteção contra a corrosão que cada um oferece, bem como na forma de aplicação e na durabilidade:
Galvanização a quente
- O que é: processo em que a peça de aço ou ferro é mergulhada em zinco fundido.
- Proteção: proteção catódica — o zinco forma uma camada metálica que reage com o ambiente antes do aço, protegendo o material mesmo se houver pequenos danos na superfície.
- Durabilidade: alta — pode durar de 30 a 50 anos dependendo do ambiente.
- Ambientes indicados: agressivos, úmidos, salinos, industriais, rurais ou costeiros.
- Manutenção: mínima ou nenhuma por décadas.
Sistema de Pintura
- O que é: aplicação de tinta ou revestimento protetor sobre o metal.
- Proteção: barreira física — a tinta isola o metal do contato com o ar e a umidade.
- Durabilidade: variável — de 2 a 10 anos, dependendo da tinta, aplicação e ambiente.
- Ambientes indicados: menos agressivos, ou como acabamento estético adicional.
- Manutenção: periódica — exige retoques e repinturas ao longo do tempo.
Considerações Finais
A aplicação de sistemas duplex sobre superfícies galvanizadas é uma solução de engenharia anticorrosiva de alto desempenho, especialmente em atmosferas industriais e marítimas.
Contudo, seu sucesso depende da preparação superficial conforme SSPC-SP 16, com uso exclusivo de ABRASIVOS NÃO FERROSOS, controle da rugosidade e aplicação da pintura segundo as diretrizes normativas da ABNT NBR 16733:2019.
As boas práticas descritas pela AGA, EGGA e ICZ, somadas ao cumprimento rigoroso das normas técnicas nacionais (NBR 6323) e internacionais (ASTM D6386, ISO 12944), são determinantes para a durabilidade, aderência e eficácia anticorrosiva do sistema. A excelência em engenharia de superfície é, portanto, o fator-chave para a longevidade e confiabilidade dos sistemas duplex em estruturas metálicas expostas.





